o amor
O AMOR
O que os mitos gregos nos revelam é que Eros é predominantemente desejo, desencadeando, portanto, a procura do outro que nos completa.
Assim, poderemos caracterizar o homem como sendo fundamentalmente um “ser desejante” tal é a força que o impulsiona a agir, a procurar o prazer e a alegria que representa alcançar o objeto de seus desejos.
A paixão não é superior a razão, pois os dois princípios estão indissoluvelmente ligados e ambos são importantes para a realização humana. Enquanto o desejo mobiliza o homem, a razão é o princípio organizador que distingue os desejos e busca os meios para sua realização. Na relação intersubjetiva, o desejo não nos impulsiona apenas para alcançar o outro enquanto objeto. Mais do que isso. O desejo exige a relação em que se busca, sobretudo o reconhecimento do outro. O amante não deseja se apropriar de uma coisa: deseja capturar a consciência do outro. A relação amorosa se funda na reciprocidade, ou seja, desejamos o outro enquanto ser consciente e também desejante.
Isso significa que no amor, quando um corpo se estende em direção a outro corpo, exige que este corpo, que ele deseja, também se estenda; porque amar é desejar o desejo do outro.
Além disso, o amor é o convite para sair de si mesmo. Se a pessoa estiver muito centrada nela mesma, não será capaz de ouvir o apelo do outro. É isso que acontece com a criança, que procura com naturalidade quem melhor preencha suas necessidades. Mas quando esse procedimento continua na vida adulta, torna-se impedimento do encontro verdadeiro.
O egocentrismo persiste na adolescência, enquanto momento de passagem da vida infantil para a vida adulta. Por isso o adolescente muitas vezes não ama propriamente o outro, ser de carne e osso, mas ama o amor. Trata-se do amor idealizado, romântico, em parte fruto do medo de se lançar nas contradições do exercício efetivo do amor.
O exercício do amor é a conquista da maturidade.
Quando dizemos que os amantes buscam o encontro, isso não significa que a meta alcançada represente algo estático. Muito ao contrário, começa aí o caminho que será o tempo todo objeto de construção e reconstrução.
Isso porque, se as pessoas são supostamente maduras, têm sua própria personalidade e individualidade. Ora, o encontro supõe o estabelecimento de vínculos, o que pode parecer paradoxal; como é possível um vínculo em que as pessoas não sejam aprisionadas e não se dissolvam na união?
O fascínio é gerador de poder; o poder de atração um pelo outro. Contudo, este “cativeiro” não pode ser visto como privação de liberdade. A presença do outro é solicitada na sua espontaneidade, pois são os dois que escolheram livremente estar juntos. O amor imaturo, ao contrário, é possessivo e dominador.
Não é fácil, porém, determinar quando o poder exercido pelo amor ultrapassa os limites. O ciúme exacerbado é o desejo do domínio integral do outro. Não queremos dizer que o ciúme não existe também nas relações maduras. Etimologicamente, ciúme significa “zelo”. O amor implica cuidado e temor de perder o amado.
Há outro paradoxo no amor: ele deve ser uma união, com a condição de cada um preservar a própria integridade. O respeito é a capacidade de ver a pessoa como tal, reconhecendo sua individualidade singular.
AMOR E PERDA
O risco do amor é a separação. Mergulhar na relação amorosa supõe a possibilidade de perda. Segundo o psicanalista Igor Caruso, a separação é a vivência da morte numa situação vital; é a vivência da morte do outro em minha consciência e a vivência de minha morte na consciência do outro.
Quando a perda é grave, a pessoa precisa de u tempo para se reestruturar, pois, mesmo quando matem sua individualidade, o tecido de seu ser passa inevitavelmente pelo ser do outro. Há um período de “luto”, e então, é superada a separação e começa a busca pelo novo equilíbrio.
No entanto, nas sociedades massificadas, onde o eu não é suficientemente forte, as pessoas preferem não viver a experiência amorosa para não ter de viver com essa morte. Talvez por isso as relações tendam a se tornar superficiais.
(ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando – Introdução a Filosofia, ed. Moderna, 1993.)
O que os mitos gregos nos revelam é que Eros é predominantemente desejo, desencadeando, portanto, a procura do outro que nos completa.
Assim, poderemos caracterizar o homem como sendo fundamentalmente um “ser desejante” tal é a força que o impulsiona a agir, a procurar o prazer e a alegria que representa alcançar o objeto de seus desejos.
A paixão não é superior a razão, pois os dois princípios estão indissoluvelmente ligados e ambos são importantes para a realização humana. Enquanto o desejo mobiliza o homem, a razão é o princípio organizador que distingue os desejos e busca os meios para sua realização. Na relação intersubjetiva, o desejo não nos impulsiona apenas para alcançar o outro enquanto objeto. Mais do que isso. O desejo exige a relação em que se busca, sobretudo o reconhecimento do outro. O amante não deseja se apropriar de uma coisa: deseja capturar a consciência do outro. A relação amorosa se funda na reciprocidade, ou seja, desejamos o outro enquanto ser consciente e também desejante.
Isso significa que no amor, quando um corpo se estende em direção a outro corpo, exige que este corpo, que ele deseja, também se estenda; porque amar é desejar o desejo do outro.
Além disso, o amor é o convite para sair de si mesmo. Se a pessoa estiver muito centrada nela mesma, não será capaz de ouvir o apelo do outro. É isso que acontece com a criança, que procura com naturalidade quem melhor preencha suas necessidades. Mas quando esse procedimento continua na vida adulta, torna-se impedimento do encontro verdadeiro.
O egocentrismo persiste na adolescência, enquanto momento de passagem da vida infantil para a vida adulta. Por isso o adolescente muitas vezes não ama propriamente o outro, ser de carne e osso, mas ama o amor. Trata-se do amor idealizado, romântico, em parte fruto do medo de se lançar nas contradições do exercício efetivo do amor.
O exercício do amor é a conquista da maturidade.
Quando dizemos que os amantes buscam o encontro, isso não significa que a meta alcançada represente algo estático. Muito ao contrário, começa aí o caminho que será o tempo todo objeto de construção e reconstrução.
Isso porque, se as pessoas são supostamente maduras, têm sua própria personalidade e individualidade. Ora, o encontro supõe o estabelecimento de vínculos, o que pode parecer paradoxal; como é possível um vínculo em que as pessoas não sejam aprisionadas e não se dissolvam na união?
O fascínio é gerador de poder; o poder de atração um pelo outro. Contudo, este “cativeiro” não pode ser visto como privação de liberdade. A presença do outro é solicitada na sua espontaneidade, pois são os dois que escolheram livremente estar juntos. O amor imaturo, ao contrário, é possessivo e dominador.
Não é fácil, porém, determinar quando o poder exercido pelo amor ultrapassa os limites. O ciúme exacerbado é o desejo do domínio integral do outro. Não queremos dizer que o ciúme não existe também nas relações maduras. Etimologicamente, ciúme significa “zelo”. O amor implica cuidado e temor de perder o amado.
Há outro paradoxo no amor: ele deve ser uma união, com a condição de cada um preservar a própria integridade. O respeito é a capacidade de ver a pessoa como tal, reconhecendo sua individualidade singular.
AMOR E PERDA
O risco do amor é a separação. Mergulhar na relação amorosa supõe a possibilidade de perda. Segundo o psicanalista Igor Caruso, a separação é a vivência da morte numa situação vital; é a vivência da morte do outro em minha consciência e a vivência de minha morte na consciência do outro.
Quando a perda é grave, a pessoa precisa de u tempo para se reestruturar, pois, mesmo quando matem sua individualidade, o tecido de seu ser passa inevitavelmente pelo ser do outro. Há um período de “luto”, e então, é superada a separação e começa a busca pelo novo equilíbrio.
No entanto, nas sociedades massificadas, onde o eu não é suficientemente forte, as pessoas preferem não viver a experiência amorosa para não ter de viver com essa morte. Talvez por isso as relações tendam a se tornar superficiais.
(ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando – Introdução a Filosofia, ed. Moderna, 1993.)


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