out of my book

Monday, July 17, 2006

LONGA JORNADA NOITE ADENTRO

Este é o nome de um fanzine que eu fazia... ele trata de um assunto incomum, se falando de zines.. ele trata de viagens. Experiências, situações inusitadas, cômicas, tristes... tudo relacionado à viagens. Como fiz uma viagem à São Paulo (SP) estes dias, resolvi reviver o espírito do zine. Mas.. vocês perceberão que ele não é meramente um diário de bordo.. é uma experiência compartilhada. Espero que gostem.. tomará alguns capítulos aqui no blog.

Antes de mais nada, devo apresentar a constatação do que é uma "viagem", para mim...

CAPÍTULO UM - O QUE É VIAJAR
Alguns de vocês já perceberam uma viagem como sendo uma espécie de "experiência sensorial"? ela começa no ritual da preparação de uma mala. Nada parece caber nela. E quando volta, nunca mais consegue se Ter o mesmo volume.. ela parece menor ainda. A travessia até a rodoviária, a inevitável observação dos volumes que outros carregam, a demora nas outras pessoas em se ajeitar nos bancos do önibus.. tudo, pra mim, é interessante. Mas, o ponto alto.. é a estrada.
Sempre vejo a estrada, ou a viajem em si, como um disco de vinil. Alguma vez você já parou na beira de uma estrada? Esse é o ponto: quando você está parado numa estrada, ela se torna um LUGAR. Agora, quando você está em movimento, ela se torna uma VIAGEM. É semelhante aos discos de vinil; tendo-o parado em suas mãos, ele é apenas um CÍRCULO COM SULCOS. Quando você o coloca em movimento... ele se torna MÚSICA. Talvez o que eu esteja dizendo soe muito insano, até um pouco forçado, problemático... mas, ora... é assim que eu vejo essas coisas...

CAPÍTULO DOIS - CARGA PESADA
Tudo estava fadado ao fracasso. Não consegui montar a fantasia, que prometi que iria usar... estava incerto sobre variadas coisas... tinha medo de gastar mais do que devia... e pra completar, a pessoa que me hospedaria me deixou para trazer da casa de sua mãe uma mala maior do que a minha. Choque e raiva interna. Recebo um telefonema. É a pessoa, que dispara sobre mim uma sequência de insultos gratuitos. Uma coisa marcante que sempre vi em sua personalidade, que conheço há anos, é que ela sempre é gentil e te faz sentir querido.. mas... subitamente... o ignora e o desmerece. E ali estava eu, mais uma vez se defrontando com aquele aspecto de sua personalidade que odeio. A pessoa que dois dias antes dizia morrer de saudades de me ver, feliz da vida, agora me tratava como um burro de carga, agindo como se eu fosse um escravo contratado, ou a devesse aquilo. Dane-se se está pesado, se terá problemas para trazer aqui. Você trará essa mala, não o ajudarei na rodoviária, pois odeio acordar cedo, e se vire para descobrir como vir na minha casa nova, que você nunca veio. Pouco me importa. Fuck you, jerk.
Muito bem. Levarei sua mala. Quando a gente se ver, acertamos nossas contas.
Na saída , a mãe dela me pergunta como irei à rodoviária "hum, pegarei o 260, desço na Praça da Bandeira, e pego o 264, ou o 606 até a rodoviária" expliquei. "nossa!! Com isso tudo?? Por que não pega apenas o 606? Ele passa aqui perto". "fico nervoso de pegar ele, com este volume todo.." pra quem não é do Rio de Janeiro (RJ), com certeza não conhece a fama que esta linha, a 606, de já Ter sido a linha de ônibus mais assaltada da cidade. "ora.. se pensar assim, é melhor nem sair de casa nunca mais." Ela me disse. Tem razão. Com medo, não se chega a lugar algum. Mas, coragem desenfreada leva a um suicídio. Mas, ali, tinha conseguido minha coragem. Para aguentar tudo que viria. Seja bom o ruim. E teria que controlar minha raiva.
Para testar mais meu ódio, levei as malas no 260. E desci na Praça da bandeira. E peguei o 606. E comecei minha longa jornada noite adentro.
Tenho certa dificuldade de dormir em viagem. Normalmente relaxo, e intercalo momentos de sono e despertar. Desta vez, passei a viagem inteira refletindo, treinando minhas falas, para não me entregar ao ódio. Eu prometi a uma pessoa que nunca mais me entregaria ao ódio. E passei as 6 horas de viagem tentando me acalmar.

CAPITULO 3

6 horas é um tempo de viagem um tanto complicado. Não pelo tempo da viagem em si, mas porque fica difícil conciliar o tempo; ou você é forçado a sair do Rio de Janeiro (RJ) muito tarde, zanzar pelas ruas onze horas, meia noite, com malas; ou sai da cidade dez horas e chega a São Paulo (SP) 4 horas da manhã e fica umas duas horas plantado na rodoviária esperando o dia nascer. Sinceramente, prefiro a Segunda opção, explico: o Terminal Tietê, não sei por que, me transmite uma certa segurança. Ele é muito grande, muito movimentado, mesmo de madrugada. O Terminal do Rio é pequeno, feio, poucos lugares para se sentar; no Terminal Tietê, você se sente, digamos, dentro de um Shopping. No do Rio, você se sente num galpão, um lugar desconfortável e que causa a impressão de que a qualquer momento um mendigo vai entrar e se ajeitar a seu lado para dormir. No Tietê, há lojas abertas e até lan Houses; no Rio, apenas umas bancas de jornal e as tradicionais lanchonetes. Pelo menos, comer no Terminal do Rio é mais barato.

CAPITULO 4
A passagem Rio de Janeiro (RJ) - São Paulo (SP) é mais cara do que o contrário - (SP - RJ) ; gastei desta vez R$ 57,00 na ida, e R$ 52,50 na volta. motivos óbvios: a subida da Serra das Araras, ainda no estado do Rio. para vir de São Paulo (SP), o ônibus vai apenas regulando os freios, numa descida de curvas perigosas. Já perdi a conta de quantos carros capotados vi nestas minhas viagens, ali. sim, o clima muda significantemente. Faz um frio danado lá em cima. Há essa altura, já são 3 horas de viagem, e temos nossa única parada: uma casa estilo holandês em Itatiaia (RJ). Creio que esse é o local mais caro para se comer no Brasil, nunca vi coisa igual. Pacotes de biscoitos que num supermercado qualquer custa R$1,50 ali não sai por menos que R$4,30. Resumindo: pontos turísticos são uma droga. Tem muita gente que vai pra Itatiaia (RJ) e Resende (RJ), ali perto, para escalar os Picos das Agulhas Negras, o ponto mais alto do estado, ou para conhecer colônias Hippies... é um local bonito, mas, não dá gosto comprar nada. Recomendação - se precisa comer um lanchinho, traga de casa.

CAPITULO 5

Sim.. só reparei nesta vez. Os locais se invertem, na minha preferência, para esperar nos terminais. No terminal do Rio, odeio ficar no segundo andar, prefiro ficar no primeiro, o local de embarque e desembarque. Já no Terminal Tietê, prefiro ficar no segundo andar (aonde dá acesso ao metrô) do que ficar no térreo, (o local de desembarque). Acho que tem a ver com o que eu falei no capítulo 3, sobre se sentir seguro. E o Terminal Tietê te dá acesso direto ao metrô, o que me deixa praticamente na porta de todos os locais que procuro em São Paulo (SP), com raras exceções. Sempre me indignou isso no Rio de Janeiro (RJ): você só pode sair da rodoviária de ônibus. E digo; o terminal dos ônibus urbanos do Rio é a coisa mais próxima de um depósito de lixo. Te dá uma vontade de pagar o dobro do valor de um taxi comum, só pra evitar entrar naquele chiqueiro. Só ano passado que - finalmente!! - inventaram de colocar na rodoviária uma linha de önibus especial que te leva até o metrô. Antes tarde do que nunca.

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